Dermatologista Alessandro Alarcão explica quais cuidados devem ser adotados, os sinais que podem indicar complicações e quando procurar avaliação médica
A decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) de restringir o uso do polimetilmetacrilato (PMMA) para fins estéticos colocou a substância novamente no centro das discussões sobre segurança em procedimentos dermatológicos no Brasil. No entanto, além do debate sobre novas aplicações, a medida também despertou dúvidas e até receios entre pessoas que já possuem o produto aplicado no rosto ou em outras regiões do corpo.
Para o dermatologista Alessandro Alarcão, a medida era necessária diante do aumento das complicações associadas ao uso da substância. “Considero uma decisão extremamente importante e necessária. Ao longo dos últimos anos, observamos uma utilização cada vez mais ampla, muitas vezes em grandes volumes e sem critérios adequados. Isso passou a gerar complicações graves, algumas delas potencialmente fatais”, afirma.
Segundo o médico, seu contato com o PMMA ocorreu em situações bastante específicas, durante o acompanhamento de pacientes vivendo com HIV, e a substância nunca fez parte de sua prática rotineira na dermatologia estética. “O posicionamento do Conselho Federal de Medicina demonstra preocupação com a segurança dos pacientes e com a saúde pública”, destaca.
Segundo Alarcão, a principal orientação neste momento é evitar conclusões precipitadas. “A primeira mensagem é de tranquilidade. Os pacientes não devem entrar em desespero”, afirma.
O especialista explica que milhares de pessoas receberam aplicações de PMMA nas últimas décadas e muitas delas jamais apresentaram qualquer tipo de complicação.
“Muitas pessoas realizaram procedimentos há anos, em pequenas quantidades, e nunca desenvolveram problemas. Isso não significa que devam ignorar o assunto, mas também não significa que obrigatoriamente apresentarão complicações”, diz.
O PMMA é um material permanente. Diferentemente dos preenchedores absorvidos gradualmente pelo organismo, ele permanece nos tecidos por tempo indeterminado, característica que motivou preocupações crescentes dentro da comunidade médica ao longo dos últimos anos.
Quais sinais exigem avaliação dermatológica?
De acordo com Alarcão, qualquer alteração na área onde o produto foi aplicado merece atenção. Entre os sinais mais frequentes estão endurecimento local, surgimento de nódulos, vermelhidão persistente, dor, aumento de volume e deformidades.
“Qualquer mudança na área tratada merece atenção. Nódulos, endurecimento, vermelhidão persistente, dor, aumento de volume, assimetrias progressivas ou qualquer alteração nova devem motivar uma avaliação especializada”, orienta.
O dermatologista explica que algumas reações podem surgir muitos anos após a aplicação. Isso acontece porque o PMMA permanece no organismo de forma definitiva.
“Diferentemente de outros produtos que são gradualmente absorvidos pelo organismo, ele permanece nos tecidos. Isso significa que estímulos imunológicos, processos inflamatórios, infecções ou alterações do próprio organismo podem desencadear reações mesmo muitos anos após a aplicação”, afirma.
Além das alterações locais, a literatura médica também registra casos relacionados a inflamações crônicas, granulomas, migração do material, hipercalcemia e comprometimento renal.
Para o especialista, foram justamente os registros crescentes dessas complicações que levaram à revisão do uso da substância. “Observamos uma utilização cada vez mais ampla, muitas vezes em grandes volumes e sem critérios adequados. Isso passou a gerar complicações graves, algumas delas potencialmente fatais”, reforça.
Acompanhamento continua sendo a principal recomendação
Embora a restrição do CFM represente uma mudança importante para os procedimentos estéticos, Alessandro Alarcão destaca que quem já possui PMMA não precisa buscar a retirada preventiva do produto sem indicação médica.
Segundo ele, a conduta mais adequada é manter acompanhamento periódico com um dermatologista ou profissional habituado ao monitoramento desses pacientes.
“Na maioria dos casos, basta uma avaliação clínica regular. Em situações específicas, dependendo da quantidade utilizada e da presença de sintomas, podem ser solicitados exames laboratoriais e de imagem para acompanhamento”, explica.
O dermatologista também lembra que a medicina estética dispõe atualmente de alternativas com perfil de segurança mais previsível, entre elas os preenchedores à base de ácido hialurônico, bioestimuladores de colágeno e tecnologias voltadas ao estímulo da produção natural de colágeno.
Ao falar sobre os pacientes que convivem com o produto há anos, o especialista reforça que informação e acompanhamento são os principais aliados. “A simples presença do PMMA não significa necessariamente doença ou complicação. O acompanhamento médico regular continua sendo a melhor estratégia.”
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