Sobrevivente de tortura infantil emocionou o público ao relatar os abusos sofridos dentro de um condomínio em Goiânia e reforçou a importância da denúncia diante de sinais de violência e omissão coletiva
Na tarde desta quinta-feira (14), o 28º Encontro de Condomínios (ECON), promovido pelo Secovi-GO, trouxe para o centro do debate a violência dentro dos ambientes residenciais com o painel “A violência não pode ser ignorada. Nos condomínios, agir não é uma escolha, é uma responsabilidade”. Mediado pela advogada e diretora do Secovi Goiás Carla Sahium Traboulsi, o encontro reuniu a escritora e missionária Lucélia Rodrigues, sobrevivente de um caso de tortura infantil que chocou o país em 2008, e a delegada Ana Elisa Gomes, titular da Delegacia Estadual de Combate à Violência Contra a Mulher em Goiás (Deam), em uma discussão sobre omissão, denúncia e responsabilidade coletiva diante de sinais de violência.
Lucélia Rodrigues foi sobrevivente de um dos casos de tortura infantil mais chocantes do país, registrado em Goiânia, em 2008. Ainda criança, ela foi submetida a uma rotina prolongada de agressões físicas, psicológicas e negligência dentro do próprio ambiente familiar. A agressora foi Silvia Calabrese, empresária que havia adotado a menina informalmente.
O caso ocorreu em um contexto de isolamento e sucessivos sinais de violência que não geraram intervenção imediata por parte de pessoas do entorno, o que contribuiu para a continuidade dos abusos. A situação teve ampla repercussão nacional e expôs a gravidade da omissão diante de indícios claros de violência. A partir da própria experiência, ela chama atenção para esse impacto.
Logo na abertura do painel, Lucélia Rodrigues emocionou o público ao relembrar os anos de violência que viveu dentro de um condomínio em Goiânia. “As roupas escondiam as marcas. Mas os meus olhinhos gritavam por socorro”, afirmou. Ao relatar a própria história, ela destacou que os sinais da violência quase sempre aparecem, mas acabam ignorados por medo, silêncio ou indiferença. “O silêncio protege o agressor, não a vítima”, reforçou.
Em um dos momentos mais impactantes do debate, Lucélia relembrou que foi a atitude de um vizinho que interrompeu o ciclo de violência que sofria ainda criança. “Foi o olhar de um vizinho que salvou a minha vida. Ele não era meu parente, não era meu amigo. Ele apenas percebeu que eu não ia mais para a escola”, contou. A escritora também afirmou que a violência costuma acontecer de forma silenciosa, mesmo diante de sinais evidentes. “Uma criança estava sendo torturada dentro de um condomínio de luxo em Goiânia… e ninguém percebia”, declarou.

Durante o debate, a delegada Ana Elisa Gomes chamou atenção para o crescimento dos casos de violência doméstica e feminicídio em Goiás, destacando que a maior parte das agressões acontece dentro das residências, inclusive em condomínios. “A violência contra a mulher acontece atrás de portas fechadas. E muitas vezes as pessoas percebem os sinais, mas escolhem não agir”, afirmou. Segundo ela, grande parte das vítimas de feminicídio nunca chegou a registrar denúncia antes da morte.
A mediadora Carla Sahium Traboulsi também alertou para a responsabilidade de síndicos, gestores e moradores diante de situações suspeitas. Segundo a advogada, a omissão pode gerar consequências jurídicas e sociais. “Hoje, o maior risco não é agir, é se omitir”, destacou. O painel reforçou a importância da denúncia, da criação de protocolos internos e da atuação coletiva para interromper ciclos de violência antes que os casos cheguem ao extremo.
Confira a programação desta sexta-feira (15/05):