Neurodivergentes: elite intelectual do empreendedorismo?

De portadores de limitações, identificação dos diagnosticados com altas habilidades pode fazer deles fatia da população especialmente vocacionada para vencer no mundo dos negócios

31 de julho de 2026 às 12:53

De portadores de limitações, os neurodivergentes começam a ser enxergados de forma distinta e positiva pelo mercado. O motivo são as altas habilidades e habilidades específicas, que comumente acompanham os diagnosticados. Novos estudos e dados estatísticos parecem apontar para uma tendência: a de uma ligação quase natural entre a neurodivergência em níveis moderados e o talento para empreender.

De acordo com o relatório Lilac Review, da Small Business Britain, organização britânica de fins não lucrativos ligada a micro e pequenas empresas, 76% dos 629 empresários entrevistados escolheram empreender a ocupar-se por assalariamento por encontrarem no empreendedorismo uma flexibilidade adequada para maior adaptação quanto a suas necessidades e ritmo específicos.

Já outro relatório – o Neurodiverse Founders, de 2024 -, organizado pelo The Enterpreneurs Network em parceria com a Barclays Eagle Labs, aponta que 67% dos fundadores de empresas britânicos diagnosticados afirmam categoricamente que sua neuridivergência os torna homens de negócios melhores.

Mas nem tudo são rosas: segundo o mesmo estudo, 61% dos abordados afirmam que adiaram ou o início de um negócio ou a expansão de um empreendimento já existente devido a limitações provocadas pela neurodivergência.

Um exemplo típico das características e cenário descritos pelas pesquisas britânicas é o do empresário canedense do ramo de transportes Samuel Carvalho. Diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ele ficou famoso nas redes sociais ao demonstrar como é possível montar uma frota de ônibus a partir de veículos adquiridos em leilão.

Hiperfoco canalizado

Para o empreendedor, os dados britânicos são reais e refletem um potencial que precisa ser explorado pela economia. “Hiperfoco quando bem conduzido, atenção aos detalhes, capacidade analítica diferenciada, maior resiliência devido a uma maior facilidade de concentração e maior habilidade de raciocínio lógico”, explica.

Acerca de como as habilidades dos neurodivergentes poderiam ser aproveitadas no mundo dos negócios em uma realidade como a brasileira e goiana, Carvalho reflete sobre uma série de políticas de crédito e análise de perfil para liberação de crédito voltados especificamente para esse público.

“Uma ideia original seria aplicar a gamificação (uso de estratégias e proposição de desafios próprias ao universo dos videogames a áreas a situações da vida real) para identificar habilidades que podem potencializar um empreendimento”, propõe. “As instituições financeiras podem criar programas baseados em aplicativos gamificados que podem ser utilizados, por exemplo, para mapear o hiperfoco”, explica.

Outra alternativa seria a aplicação de questionários interativos. “Permitiria avaliar o nível de capacidade analítica, com a proposição de mini jogos de lógica para identificar características como a alta performance em certas áreas que demandam ousadia na hora de investir ou de alavancar um negócio”, projeta.

Score de potencial

Para lidar com o risco de crises causadas, por exemplo, por burnout ou paralisia de ação, Carvalho defende um sistema de análise de crédito alternativo, com base na medida de um score baseado em potencial neurodivergente. “Identificadas características que podem interessar, como a criatividade disruptiva (potencial para inovar em um negócio), o próprio sistema garantiria não apenas o crédito, mas também blindar esse empreendedor quanto aos gargalos do início de sua vida como empresário, criando programas para evitar a sobrecarga emocional”, frisa.

Por fim, Carvalho destaca as vantagens da adoção de um sistema de análise de crédito específico para neurodivergentes no sistema financeiro. “Pela minha própria experiência e pelos contatos com outros neurodivergentes que tenho tido, posso afirmar com toda a certeza: nós somos mais confiáveis para promover o crescimento econômico a partir de nossa atuação com empreendedores que a maioria das pessoas típicas”, conclui.