TDAH, dislexia, dispraxia e Síndrome de Tourette não possuem números oficiais, mas podem afetar dezenas de milhares em Goiás; candidato neurodivergente defende tratamento estatístico análogo ao autismo para desenvolvimento de políticas públicas
As neurodivergências têm se tornado um dos assuntos mais abordados entre profissionais de saúde, políticos e opinião pública. Entretanto, quando são considerados os dados estatísticos, apenas o Transtorno do Espectro Autista (TEA) recebe um tratamento adequado pelo setor público no Brasil. Em relação às outras condições, a situação é de uma negligência verificada, inclusive, em escala internacional.
Os dados falam por si: nos dias de hoje, há um retrato estatístico preciso a respeito da TEA no Brasil, revelado pela dinâmica dos números oficiais. Levantada pelo último Censo (2022), é possível afirmar com segurança, considerada a necessidade de atualização: o Brasil tem 2,4 milhões de autistas. Goiás tem uma população diagnosticada de 75 mil indivíduos.
A precisão termina onde o Censo delimitou. No que diz respeito às outras condições mais mencionadas na literatura médica – Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), dislexia, dispraxia e Síndrome de Tourette -, tudo reside no campo da estimativa.
A maior imprecisão não limita a possível magnitude do desafio. Nesse terreno, o cálculo é feito para gerar uma prevalência estimada: levantamento baseado em diretrizes de Saúde Pública e estudos médicos pontuais. Baseados nisso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) pondera que entre 5% e 8% da população mundial seja portadora de TDAH. Segundo estimativa do Ministério da Saúde, no Brasil, a condição deve afetar 7,6% da população entre 6 e 17 anos, e 6% da população adulta.
Essa cultura da imprecisão na hora de se definir com maior clareza as diversas populações de neurodivergentes já começa a chamar a atenção do mundo político. Diagnosticado com TDAH, o empresário canedense Samuel Carvalho, candidato a uma vaga na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) pelo Republicanos, tem na defesa dos direitos dos diagnosticados sua principal bandeira.
“Eu pessoalmente tive de enfrentar vários desafios, principalmente no meio escolar, para levar uma vida normal. A principal delas foi ter passado boa parte da minha vida sem ter consciência da minha condição. Mas o que é pior: nem o Poder Público sabia, porque não existiam dados estatísticos do número de diagnosticados. Sem dados oficiais confiáveis, é impossível determinar dotação orçamentária. Sem recurso, é impossível efetivar políticas públicas. A falta de dado estatístico é, nesse sentido, a porta de entrada do abandono”, ressalta Carvalho.
Dislexia, dispraxia e Síndrome de Tourette
Samuel menciona que o TDAH infelizmente não é um caso isolado. Em nível mundial e na realidade brasileira e goiana, tudo o que existe é estimativa. Segundo levantamento do Ministério da Saúde em parceria com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), podem existir entre 7,8 milhões e 8 milhões de diagnosticados com essa condição no país. “Esse número pode ser tão alto que existe um Projeto de Lei no Senado para incluir perguntas específicas sobre dislexia no questionário do próximo Censo, para que seja feita a respeito dessa neurodivergência o que foi feito em relação ao autismo”, informa.
Samuel também cita a dispraxia (Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação) – dificuldade na execução de movimentos voluntários, e a Síndrome de Tourette. “A OMS calcula que 1% da população mundial tenha Síndrome de Tourette (tiques verbais e de movimento, repetidos de forma compulsiva). E tem outro detalhe: a Síndrome de Tourette e a dispraxia são comorbidades que aparecem em conjunto com a TDAH”, explica o candidato.
Para o empresário, é necessário que essas principais neurodivergências sejam alvo dos mesmos procedimentos estatísticos dos quais o autismo foi objeto. “Os números nos dão um mapa, um caminho. Eles são a matéria prima das políticas públicas. E sem políticas públicas, é possível que talvez milhares de goianos estejam sendo tratados como cidadãos de segunda classe, quando poderiam ser pessoas plenamente capazes e produtivas”, ressalta.
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