Especialistas discutem responsabilidade coletiva, sinais silenciosos e caminhos para transformar moradores e gestores em agentes de prevenção
A segurança em condomínios vai além de portarias, câmeras e sistemas tecnológicos. Diante de situações de violência, a omissão deixa de ser uma escolha e passa a representar um risco coletivo. Esse é o ponto de partida do painel “A violência não pode ser ignorada. Nos condomínios, agir não é uma escolha, é uma responsabilidade”, que integra a programação do 28º Encontro de Condomínios (ECON), promovido pelo Secovi-GO.
Mais do que discutir o problema, o painel propõe uma mudança de postura: transformar moradores, síndicos e gestores em agentes ativos na prevenção e no enfrentamento da violência. Entre as participantes está a escritora e missionária Lucélia Rodrigues, sobrevivente de um dos casos de tortura infantil mais chocantes do país, registrado em Goiânia, em 2008. Ainda criança, ela foi submetida a uma rotina prolongada de agressões físicas, psicológicas e negligência dentro do próprio ambiente familiar.
O caso ocorreu em um contexto de isolamento e sucessivos sinais de violência que não geraram intervenção imediata por parte de pessoas do entorno, o que contribuiu para a continuidade dos abusos. A situação teve ampla repercussão nacional e expôs a gravidade da omissão diante de indícios claros de violência. A partir da própria experiência, ela chama atenção para esse impacto. “A omissão também fere. Durante anos, existiram sinais, mas faltou alguém que tivesse coragem de agir mais rápido.”
Segundo Lucélia, situações de violência dificilmente acontecem sem deixar sinais. Isolamento, medo excessivo, choros frequentes, marcas no corpo e mudanças bruscas de comportamento são alguns dos indícios que precisam ser levados a sério. “A violência quase sempre deixa rastros. O problema é que, muitas vezes, ninguém quer enxergar”, reforça.
Na perspectiva da segurança pública, a delegada Ana Elisa Gomes, titular da Delegacia Estadual de Combate à Violência Contra a Mulher em Goiás (Deam), explica que a maior parte dos casos de violência ocorre dentro das próprias residências, incluindo unidades em condomínios, e envolve diferentes formas de agressão previstas na Lei Maria da Penha, como violência física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. Entre os registros mais comuns estão ameaças, perseguições e lesões corporais.
A delegada destaca que há diversos canais acessíveis para denúncia, como o 190, em casos de emergência, o 197 da Polícia Civil e o 180, além do atendimento presencial nas delegacias e do registro pela delegacia virtual. Ela reforça que o enfrentamento à violência depende de uma rede de apoio ativa. “Muitas vezes, a vítima não se reconhece no ciclo de violência. Por isso, é fundamental que pessoas próximas se aproximem, ofereçam apoio e, se necessário, façam a denúncia, inclusive de forma anônima”, orienta.
Do ponto de vista jurídico, a advogada Carla Sahium Traboulsi ressalta que o condomínio não pode se omitir diante de indícios de violência. Segundo ela, o síndico, como representante legal da coletividade, tem o dever de adotar providências para preservar a segurança dos moradores, respeitando os limites legais. Entre as medidas estão o registro de ocorrências, a comunicação às autoridades competentes e o encaminhamento do caso às instâncias internas, quando necessário.
“Hoje, o maior risco não é agir, é se omitir. A negligência pode gerar responsabilização civil tanto do condomínio quanto do síndico, especialmente diante de situações previsíveis e evitáveis”, pontua.
A especialista também defende a adoção de medidas preventivas, como a criação de protocolos de atuação, a comunicação contínua com moradores e a disseminação de informações sobre canais de denúncia. Nesse contexto, a mediação se destaca como ferramenta estratégica para evitar a escalada de conflitos. Ao promover o diálogo e a construção de soluções, contribui para impedir que desentendimentos cotidianos evoluam para situações mais graves.
Encerrando o debate, Lucélia Rodrigues reforça a importância da atitude diante de qualquer suspeita. “Se você desconfia, denuncie, mesmo sem ter certeza absoluta. É melhor investigar e proteger do que se calar e permitir que o pior aconteça. O silêncio protege o agressor, mas a atitude protege a vítima”, afirma.
O que é o ECON?
O ECON é um dos principais encontros do setor imobiliário e condominial em Goiás, reunindo especialistas, gestores e profissionais para discutir tendências, desafios e boas práticas na administração de condomínios. Em sua 28ª edição, o evento traz como foco temas ligados à convivência, inovação e responsabilidade social, refletindo as transformações no modo de viver em ambientes coletivos.
28º Encontro de Condomínios (Econ) – Condomínio 2030: Inteligência, Sustentabilidade e Convivência Digital
Data: 14 e 15 de maio
Horário: 8h às 18h com happy hour no dia 15 (18h às 21h)
Local: Flamboyant Hall, Goiânia – GO – Avenida Deputado Jamel Cecílio, 3300, Shopping Flamboyant , Jardim Goiás – Goiânia, GO
Inscrições: https://www.sympla.com.br/evento/28-econ-condominio-2030-inteligencia-sustentabilidade-e-convivencia-digital/3288872