Especialista em Direito de Família explica como a nova orientação afasta percentuais automáticos e prioriza a realidade econômica das famílias
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) consolidou um entendimento que altera o eixo das decisões sobre pensão alimentícia no país. A Corte afirmou que a fixação do valor não pode seguir percentuais automáticos nem critérios padronizados, devendo considerar, de forma concreta, a capacidade de pagamento do alimentante e as necessidades reais de quem recebe.
A decisão reforça que a obrigação alimentar não é estática e pode ser revista sempre que houver mudança comprovada na situação financeira das partes. O tribunal sinaliza que o Judiciário deve abandonar fórmulas genéricas e analisar cada caso a partir do contexto econômico atual.
Mudança de perspectiva
O posicionamento parte do reconhecimento de que a renda das famílias oscila. Perda de emprego, redução salarial, informalidade, novas responsabilidades familiares e aumento do custo de vida são fatores que impactam diretamente a capacidade de pagamento.
Ao reafirmar o chamado binômio necessidade–possibilidade, o STJ indica que a pensão deve ser proporcional e viável, evitando decisões que resultem em inadimplemento recorrente ou judicialização sucessiva.
Proteção mantida, distorções evitadas
A Corte também deixou claro que a prioridade de crianças e dependentes permanece intacta. O que se busca é evitar distorções que inviabilizem o cumprimento da obrigação.
Para o professor e advogado Eder Araujo, o entendimento fortalece a efetividade do sistema. “Quando o valor é fixado sem considerar a realidade financeira de quem paga, o resultado costuma ser o descumprimento. A decisão do STJ reforça que a pensão precisa ser possível e proporcional para cumprir sua função social”, afirma.
Revisão exige prova concreta
O tribunal também destacou que pedidos de revisão devem ser fundamentados em provas objetivas, como alteração de renda ou mudança relevante na estrutura familiar. O contexto econômico deve ser considerado, afastando decisões baseadas apenas em parâmetros fixos.
“O Direito de Família lida com situações dinâmicas. Ignorar as transformações econômicas é produzir decisões que não se sustentam no tempo”, diz Eder Araújo.
Impacto direto nas famílias
A consolidação desse entendimento pode influenciar julgamentos em todo o país, especialmente em um cenário de instabilidade econômica e crescimento da informalidade. Ao colocar a realidade no centro das decisões, o STJ busca reduzir conflitos prolongados e tornar o cumprimento da pensão mais sustentável.
Mais do que um ajuste técnico, a decisão representa um recado institucional: a aplicação do Direito exige conexão com a vida concreta das pessoas envolvidas.