Adoecimento mental no trabalho cresce e psicólogo aponta causas e soluções

2 de abril de 2025 às 10:11

O aumento dos afastamentos do trabalho por questões de saúde mental não é um fenômeno isolado em Goiás ou no Brasil. Trata-se de uma realidade global, apontando para um contexto mais amplo que influencia o bem-estar dos trabalhadores. De acordo com o psicólogo Flávio Ribeiro, a piora significativa da saúde mental da população pode ser observada a partir de 2010, período que coincide com a consolidação da tecnologia móvel e o crescimento exponencial do uso de redes sociais.

Para Flávio Ribeiro, um dos principais fatores que contribuíram para esse cenário foi a transformação da relação entre vida pessoal e profissional.

“A partir de 2010, passamos a viver conectados o tempo todo, e os limites entre trabalho, lazer e casa ficaram mais difusos. Isso gerou um aumento expressivo nos casos de ansiedade, depressão e até suicídio. As redes sociais potencializaram essa situação ao criar uma pressão constante para a comparação e a busca por uma vida idealizada”, analisa Ribeiro.

O psicólogo destaca que essa constante necessidade de produtividade e sucesso afeta diretamente a autoestima das pessoas.

“O descanso e o lazer começaram a ser vistos como obstáculos para o sucesso. Isso cria uma fórmula perigosa para o adoecimento mental, pois ao mesmo tempo que aumentam as pressões internas, reduzem a autoestima, levando a um colapso psicológico”, pontua.

No ambiente corporativo, essa exaustão mental se manifesta principalmente como burnout, um estado de esgotamento extremo associado ao trabalho. Segundo Flávio Ribeiro, os impactos vão além do bem-estar individual e afetam a própria dinâmica das empresas.

“O burnout e outros transtornos relacionados à sobrecarga emocional resultam em queda na produtividade, aumento do absenteísmo, dificuldades de relacionamento interpessoal e perda na qualidade do trabalho. A exaustão mental não afeta apenas o indivíduo, mas também o funcionamento das organizações”, explica.

Diante desse cenário, o psicólogo defende que as empresas precisam adotar medidas para preservar a saúde mental de seus colaboradores. Entre as principais soluções, ele sugere a flexibilização da jornada de trabalho, a implementação de pausas regulares, a criação de espaços adequados para descanso e a promoção da integração social dentro do ambiente corporativo.

“Um ambiente de trabalho mais saudável reduz o estresse, melhora o engajamento dos funcionários e contribui para a qualidade de vida. Investir na saúde mental dos trabalhadores é também um investimento na própria empresa”, conclui o psicólogo.

Com a crescente preocupação sobre o tema, Flávio Ribeiro ressalta que tanto empresas quanto indivíduos precisam repensar a forma como lidam com o trabalho, o lazer e a conexão digital. O desafio está em encontrar o equilíbrio necessário para garantir bem-estar e qualidade de vida.

O lado humano do problema

O adoecimento mental no trabalho não é apenas uma questão estatística, mas uma realidade vivida por muitas pessoas. A jornalista Camila Sousa compartilhou sua experiência:

“Os primeiros sinais foram físicos e emocionais: crises de ansiedade, pânico e choro dentro e fora do ambiente de trabalho. Além disso, sentia uma opressão constante por lidar com chefes abusivos e colegas que normalizavam a grosseria. Havia um certo medo de impor limites e ser demitida por isso. A mente sempre estava carregada de dúvidas sobre como lidar com a situação. Lidava com grande pressão por ser culpabilizada por situações que fugiam do meu controle.”

Questionada sobre o que poderia ter ajudado a evitar esse adoecimento, Carol enfatiza a necessidade de mudanças estruturais dentro das empresas.

“Acredito que muitas empresas ainda negligenciam aspectos fundamentais para a saúde mental e o bem-estar dos colaboradores. Um suporte adequado, treinamento contínuo e uma comunicação transparente entre liderança e equipe seriam essenciais para prevenir situações de adoecimento. Além disso, promover um ambiente com menos pressão desnecessária, mais empatia e respeito no trato diário faria toda a diferença. Educação emocional e gestão humanizada deveriam ser prioridades – afinal, colaboradores são pessoas, não apenas recursos. Quando as empresas investem em diálogo aberto, escuta ativa e condições de trabalho dignas, todos ganham: a equipe fica mais saudável, e a organização colhe os frutos de um time engajado e produtivo.”

A história de Carol ilustra a importância de se discutir saúde mental no ambiente corporativo. O desafio, segundo Ribeiro, é encontrar um equilíbrio entre trabalho, lazer e a hiperconectividade para garantir mais qualidade de vida e bem-estar para todos.