Não Campanha de conscientização destaca a necessidade de cuidados individualizados, acompanhamento do desenvolvimento e apoio às famílias que enfrentam os desafios do nascimento antecipado
O Novembro Roxo foi instituído como mês de conscientização sobre a prematuridade e chama a atenção para os desafios enfrentados por crianças que chegam ao mundo antes do tempo esperado. A campanha também reforça a importância de que a assistência não termine com a alta hospitalar, mas tenha continuidade durante as diferentes etapas do desenvolvimento infantil. A iniciativa busca ampliar o acesso à informação e conscientizar a sociedade sobre uma realidade que, desde o nascimento, impõe aos pais uma jornada de cuidados e exige a reorganização da rotina de toda a família.
São considerados prematuros os bebês que nascem antes de completar 37 semanas de gestação.
Segundo dados divulgados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aproximadamente 300 mil crianças nasceram prematuramente no Brasil em 2023, o equivalente a cerca de 12% dos nascidos vivos. Os números mostram que a prematuridade é uma questão relevante de saúde pública e que seus impactos ultrapassam o período de internação, envolvendo também o desenvolvimento da criança e a adaptação dos familiares.
A fisioterapeuta Rafaela Campos, diretora multiprofissional da Affect Centro Clínico e Educacional, clínica especializada no acompanhamento de crianças prematuras, neurodivergentes e com doenças raras, explica que a alta da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI Neonatal) costuma ser uma das conquistas mais aguardadas pela família, mas não representa o fim dos cuidados especiais. Segundo ela, o retorno para casa marca o início de uma nova etapa, na qual os pais precisam compreender as necessidades do bebê, observar seu comportamento e seguir as recomendações dos profissionais de saúde.
“Observar a alimentação, o sono, o ganho de peso e a aquisição de novas habilidades passa a fazer parte das preocupações cotidianas. O acompanhamento profissional é fundamental para avaliar a evolução da criança e identificar possíveis necessidades de intervenção. É necessário também observar aspectos como a coordenação dos movimentos, o controle da cabeça e do tronco, a interação, a alimentação e as respostas aos estímulos do ambiente. A atenção a esses sinais permite reconhecer dificuldades precocemente e orientar a família sobre os cuidados mais adequados”, observa.
Rafaela destaca outro aspecto importante nessa avaliação: a chamada idade corrigida, utilizada principalmente nos primeiros dois anos de vida de crianças prematuras.
“O cálculo considera quantas semanas faltavam para o bebê completar 40 semanas de gestação quando nasceu. Assim, a avaliação do desenvolvimento leva em conta não apenas a idade cronológica, contada a partir do nascimento, mas também o tempo de gestação que a criança não completou. Esse cuidado evita comparações inadequadas com bebês não prematuros e permite estabelecer expectativas mais realistas para cada fase”, afirma.
Segundo a fisioterapeuta, é importante destacar que nascer prematuro não significa, necessariamente, que a criança terá atrasos no desenvolvimento ou precisará de acompanhamento terapêutico em todas as especialidades.
“Cada bebê apresenta uma trajetória própria, influenciada por fatores como idade gestacional ao nascimento, condições clínicas, intercorrências durante a internação e evolução após a alta. O acompanhamento individualizado permite identificar tanto as dificuldades quanto as habilidades já desenvolvidas, respeitando o ritmo de cada criança”, pontua.
Rafaela ressalta que, na Affect Centro Clínico e Educacional, esse processo começa com uma avaliação global do bebê. A proposta é reunir diferentes olhares profissionais para compreender sua história clínica, suas habilidades, eventuais dificuldades e as condições da rotina familiar.
“A partir dessa análise, é possível identificar quais cuidados são necessários e estabelecer um planejamento de acompanhamento de acordo com as necessidades de cada criança. O trabalho também envolve orientar os pais, esclarecer dúvidas e ajudá-los a reconhecer os sinais apresentados pelo bebê no dia a dia. A participação da família é considerada parte essencial do processo, uma vez que grande parte das experiências de desenvolvimento acontece nas atividades cotidianas, fora do ambiente terapêutico”, reforça.
A fonoaudióloga Juliana Menezes, diretora técnica da Affect, aponta que, na fonoaudiologia, as dificuldades relacionadas à alimentação também estão entre as principais preocupações das famílias de prematuros.
“O processo de amamentação ou alimentação por mamadeira exige coordenação entre sugar, engolir e respirar. Como essa capacidade depende do amadurecimento e das condições clínicas do bebê, algumas crianças podem apresentar dificuldades durante as mamadas, especialmente após uma trajetória de internação e cuidados intensivos”, sublinha.
Juliana alerta que sinais como cansaço durante a alimentação, demora excessiva nas mamadas e dificuldade para utilizar determinados bicos de mamadeira podem indicar alterações na sucção, na coordenação alimentar ou na segurança da deglutição.
“A avaliação profissional é importante para observar não apenas a quantidade de leite ingerida, mas também o esforço realizado pelo bebê e a qualidade da alimentação, considerando suas necessidades individuais e o acompanhamento médico”, acrescenta.
Para a profissional, além dos cuidados com a alimentação e o desenvolvimento infantil, a prematuridade também exige atenção à saúde emocional dos pais. De acordo com ela, a experiência de uma internação neonatal pode provocar insegurança mesmo depois que o bebê recebe alta, fazendo com que a família conviva com o medo de complicações, a preocupação com possíveis atrasos e a ansiedade diante de cada mudança no comportamento da criança.
“O acolhimento psicológico e a orientação profissional ajudam os pais a compreender melhor o desenvolvimento da criança e a lidar com as expectativas em relação ao futuro. Ter espaço para compartilhar preocupações, receber informações claras e participar das decisões sobre o tratamento contribui para uma relação mais segura entre família e profissionais de saúde”, completa.
Legendas/Créditos:
Campanha de conscientização destaca a necessidade de cuidados individualizados, acompanhamento do desenvolvimento e apoio às famílias que enfrentam os desafios do nascimento antecipado (Affect/Divulgação)
Acompanhamento individualizado permite identificar tanto as dificuldades quanto as habilidades já desenvolvidas, respeitando o ritmo de cada criança (Affect/Divulgação)