Inteligência artificial já está nas empresas e o uso sem regras cria riscos invisíveis

25 de setembro de 2026 às 13:44

Utilização sem orientação pode expor dados, gerar informações incorretas e aumentar os riscos jurídicos e operacionais

A Inteligência Artificial (IA) já faz parte da rotina de muitos trabalhadores e vem sendo usada para tarefas como escrever textos, analisar documentos, organizar informações e criar conteúdos. O desafio é que, em muitas empresas, essas ferramentas chegam antes das regras para seu uso. Sem orientação e medidas de segurança, a utilização inadequada da inteligência artificial pode trazer prejuízos e até gerar responsabilidade para o empregador.

É possível que muitos funcionários já tenham incorporado às suas atividades diárias ferramentas como ChatGPT, Gemini e outros sistemas de inteligência artificial, por iniciativa própria. Em muitos casos, a intenção é positiva, pois a tecnologia ajuda a economizar tempo, organizar tarefas, melhorar a apresentação de um documento ou encontrar alternativas para uma atividade que antes exigia mais horas de trabalho. O problema começa quando essa utilização acontece sem conhecimento da empresa e sem critérios de segurança.

Esse fenômeno, conhecido em alguns ambientes como uso informal ou não autorizado de ferramentas de IA, cria uma espécie de inteligência invisível dentro das organizações. O funcionário utiliza uma plataforma externa para realizar uma tarefa profissional, mas a empresa pode não saber qual ferramenta foi usada, que tipo de informação foi inserida, quais são as condições de tratamento dos dados ou até mesmo como o resultado produzido será utilizado.

O risco aumenta quando informações internas são inseridas nesses sistemas, como documentos enviados para análise que podem conter dados pessoais de clientes, informações financeiras, contratos, estratégias comerciais, dados de funcionários, projetos ainda não divulgados ou informações protegidas por acordos de confidencialidade. Dependendo da ferramenta, da configuração utilizada e dos termos do serviço, essas informações podem estar sujeitas a diferentes formas de armazenamento e processamento, o que exige atenção por parte da empresa.

O advogado trabalhista Lucas Aguiar explica que a preocupação envolve a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

“O simples fato de uma informação estar disponível para uso em uma ferramenta tecnológica não significa que ela possa ser transferida livremente para qualquer sistema. Empresas que lidam com dados pessoais precisam considerar finalidade, necessidade, segurança, governança e demais requisitos aplicáveis ao tratamento dessas informações”, alerta.

Aguiar destaca um segundo problema, que é a possibilidade de a inteligência artificial produzir respostas incorretas, os chamados erros ou “alucinações” de sistemas generativos.

“Em algumas aplicações, a ferramenta apresenta informações falsas, incompletas ou sem fundamento como se fossem verdadeiras. Um texto pode conter uma estatística inexistente, uma referência que não foi publicada, uma interpretação jurídica equivocada ou uma informação aparentemente convincente, mas incorreta. É um risco grave, principalmente quando o resultado equivocado passa diretamente para um cliente, contrato, relatório, campanha publicitária, documento jurídico ou decisão empresarial. Isso precisa ser evitado”, orienta.

O especialista lembra que, embora a tecnologia possa ajudar na produção do material, ela não elimina a necessidade de revisão humana.

“A responsabilidade pelo conteúdo utilizado profissionalmente não desaparece porque uma máquina participou de sua elaboração. A questão passa então a envolver quem autorizou o uso, quais ferramentas foram adotadas e quais informações foram fornecidas ao sistema. Além disso, é necessário considerar quais mecanismos de proteção existem e quem conferiu o resultado antes de sua utilização. Do ponto de vista jurídico, o empregador pode responder por atos praticados por seus empregados no exercício do trabalho se o uso da IA causar prejuízo a um cliente ou terceiro”, adverte.

O advogado reforça que, para evitar situações de uso indevido da IA, é preciso investir em treinamento.

“Não basta entregar um manual ao trabalhador e esperar que ele saiba diferenciar uma utilização segura de uma situação de risco. As equipes precisam entender, de maneira prática, por que determinados dados não devem ser inseridos em uma ferramenta, como verificar uma informação produzida por inteligência artificial e quais situações exigem autorização ou revisão. O desafio das empresas é aproveitar os benefícios da inteligência artificial sem aumentar os riscos jurídicos e operacionais”, salienta.

Legendas/Créditos:
Utilização sem orientação pode expor dados, gerar informações incorretas e aumentar os riscos jurídicos e operacionais (Magnific/Foto Ilustrativa)
Lucas Aguiar, Advogado Trabalhista (Divulgação)

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