De simples grupos de whatsapp, startups do setor surgem para atender público crescente de amadores de alto desempenho e semiprofissionais, em calendário de eventos de rua que crescem 85% em apenas um ano
O mercado de serviços ligados à prática de corrida de rua em Goiânia está em alta. Além da maior quantidade de eventos previstos na capital, o perfil do competidor amador também mudou. Cada vez mais, a imagem do personagem folclórico, fantasiado e cômico dá lugar ao semiprofissional, consumidor de tecnologia voltada para a prática esportiva, organizado em times e, sobretudo, treinado por profissionais que enxergam nesse novo nicho de mercado uma oportunidade para empreender.
O mercado impressiona e convida empreendedores pelos números e características. De acordo com a Associação Brasileira de Organizadores de Corrida de Rua, o número de eventos oficiais aumentou 85% em 2025 em relação ao ano anterior, com 5,2 mil corridas realizadas, no País. Já o relatório da plataforma digital de georreferência Strava-Ticket Sports estima em 15 milhões os praticantes de corrida de rua no Brasil. Em Goiânia, estão previstos 12 eventos oficiais entre agosto e dezembro deste ano.
O mercado goianiense já conhece seu formato: os grupos de corrida que se concentram, sobretudo, na Avenida Ricardo Paranhos. Inicialmente organizados como meros grupos de mensagem para a corrida no próprio espaço urbano, evoluíram para startups que congregam um hub de empreendedorismo que entrega alta performance, em que corredores amadores e semiprofissionais aderem aos calendários municipal, regional e nacional de provas.
O empresário Felipe Mabel, entusiasta do empreendedorismo, identifica uma série de características que fazem dos grupos de corrida um dos principais nichos de mercado para educadores físicos que desejam fundar a própria empresa.
“Em primeiro lugar tem a baixa barreira de entrada. Essas empresas atuam em espaços físicos abertos. Você já não tem o custo fixo do aluguel do ponto, que costuma ser uma das principais empresas de uma academia tradicional. Além disso, o custo fixo é baixo e gira em um longo espaço de tempo. Você compra equipamentos como tendas, bancos, estações de descanso, e pronto: sua estrutura tem uma vida útil que vai durar anos”, analisa.
Educador físico e fisioterapeuta, Mabel também é pré-candidato a deputado estadual e salienta os baixos custos variáveis. “Você tem pouco impacto com a chegada de novos alunos, e praticamente tudo o que você oferece é pago pelo próprio aluno”, comenta o empreendedor. Ele se refere à tendência à customização e à facilidade para a formação de vínculos de índole comunitária nos grupos de corrida, cujos membros costumam adotar uniformes, bonés, viseiras e squeezers padronizados.
Outra característica desse mercado é o fato de não serem difíceis os arranjos com outros setores de atividade econômica. “Os economistas chamam isso de ‘efeito de arrasto’. Atualmente, na mesma área de treinamento dos grupos de corrida você encontra mesas de degustação de suplementos, estações de fisioterapia para procedimentos de recuperação muscular pós-treino, estações de hidratação, ou seja: é toda uma cadeia de negócios que é criada”, explica Felipe Mabel.
O empresário vislumbra um futuro de expansão da atividade. “Acredito que você vai ter cada vez menos a iniciativa individual, centrada na pessoa física do educador físico, e vai evoluir para um modelo de parcerias do tipo B2B (do inglês business to business, “de negócio para negócio”). Já existem, inclusive, empresas formadas por profissionais interdisciplinares focadas na oferta de serviços de atividade física ligada ao aumento de qualidade de vida e saúde mental, já adaptadas a demandas mais específicas, como as que surgem de grandes empresas e condomínios”, antevê Mabel.
Candidato a deputado estadual pelo Podemos nas eleições deste ano, Felipe Mabel afirma que o papel do poder público envolve iniciativas como aumento da segurança jurídica, promoção de incentivos fiscais e manutenção de espaços públicos adequados. “Em resumo, basta que o Estado interfira minimamente. O mercado está em estruturação, constroi sua própria lógica e tem um considerável potencial de geração de emprego e renda. Vale a pena apostar”, conclui.