Neurodivergentes são negligenciados pela comunidade empresarial

28 de julho de 2026 às 14:51

Pesquisa sobre promoção de ações inclusivas entre micro e pequenos empresários revela que diagnosticados estão entre últimos lembrados como alvo de prática por estabelecimentos

No mundo empresarial, as políticas inclusivas parecem deixar os neurodivergentes de lado. É o que se pode depreender por um recente estudo promovido pelo Serviço Nacional de Apoio à Micro e Pequena Empresa de Minas Gerais (Sebrae-MG) entre empreendedores daquele estado. De acordo com a Pesquisa Diversidade, Equidade e Inclusão, realizada neste ano, 68% dos micro e pequenos empresários mineiros afirmam terem realizado algum tipo de ação, inclusive em suas empresas. Entretanto, apenas 18% diz ter realizado alguma medida em favor de neurodivergentes, o que deixou esse grupo populacional em sétimo de uma lista de 10 grupos-alvo de ações inclusivas e de promoção do consumo consciente.

Lideram a lista da pesquisa do Sebrae-MG as políticas voltadas para igualdade racial, que recebe 48% das iniciativas, e de promoção da igualdade de gênero, que concentra 40% das ações focadas na igualdade entre homens e mulheres no interior das empresas e na política comercial.

Entre as causas do aparente descaso em relação a outros grupos, tais como os neurodivergentes e os refugiados e quilombolas, a pesquisa apontou fatores como o caráter recente da informação disponível e o grau reduzido, em termos numéricos, das populações, exceção feita aos neurologicamente atípicos.

Diagnosticado com TDAH, o empresário e pré-candidato a deputado estadual Samuel Carvalho (Republicanos) acredita que cenários como o de Minas Gerais se repetem em Goiás. “Até mesmo pela proximidade cultural e de formação socioeconômica que temos em relação aos mineiros”, avalia.

Entretanto, o empresário acredita que, na medida em que os estudos e formas de diagnósticos de neurodivergentes avançam, e a informação se torna disseminada, é possível que o quadro de aparente descaso dos empresários em relação a políticas específicas voltadas para portadores de neurodivergências seja superado. “É claro que políticas públicas específicas podem auxiliar o setor a adotar essas medidas”, aponta.

Políticas públicas

Entre tais políticas, Carvalho defende o que ele denomina “horários silenciosos” em períodos de tempo específicos ao longo da semana, durante o expediente comercial. “Seria uma prática voltada para centros de compras com grande circulação de pessoas. Em alguns minutos ou até mesmo uma hora, por exemplo, poderiam ser adotadas práticas como luz reduzida, interrupção de música ambiente e redução de anúncios sonoros. Poderia ser um mecanismo de recuperação cognitiva. Sabemos o impacto negativo que a poluição sonora exerce, por exemplo, junto a autistas”, explica.

Outra medida defendida pelo empresário é a utilização de avisos, nos quais se informasse a equipes de profissionais e público em geral sobre os cordões de girassol, faixa para o pescoço com estampas na forma desse espécime floral, cujo objetivo é identificar pessoas diagnosticadas com neurodivergência de forma discreta. “O uso do cordão de girassol como forma de identificação dessas condições ocultas já está inclusive contemplado pela legislação, na forma da Lei 14.624, de 2023”, informa Samuel.

Salas de descompressão

Carvalho também defende a criação do que ele chama de salas de descompressão. “São salas sem som, com ambientes sem imagens, posicionados em locais de grande propensão a aglomeração e grande circulação de transeuntes. Seria um espaço destinado à promoção do acolhimento, especialmente durante crises de sobrecarga sensorial, que acontecem com muita frequência entre autistas, disléxicos e hiperativos”, comenta.

Proprietário de uma empresa de transportes em Senador Canedo, Samuel Carvalho aponta as vantagens da adoção de práticas amplas de inclusão de neurodivergentes, até mesmo, como forma de aumento de vendas e faturamento das empresas comerciais. “Sabemos o apelo que o consumo consciente exerce sobre as novas gerações, independentemente de os consumidores serem ou não diagnosticados. É uma forma de fidelização de clientes e de promover um aumento sustentado da atividade econômica, além de promover o aumento de qualidade de vida”, salienta.